Home
    Vitrine Literária Editora
   Catálogo
   Amostra grátis
   Quem somos
    Sala de Leitura
   Balaio
   Entrevistas
   Notícias
   Palavra de Escritor
   Veredas do Rosa
    Fala Viva
   Quase desconhecidos
   Comentários impertinentes
   Primeira Impressão
    Outras palavras
   Coisas da Malluh
    Livros à venda
   Crônica
   Poesia
   Infantil
   Contos
   Romance
   Ciências
   Humor
   Música
   Fotografia
   Culinária
   Medicina
   Saúde
   História e cultura
    Profissionais e Serviços
   Ilustrações
   Livrarias
Vitrine Literária
    Amostra grátis
 
A invasão de Mariana e outros relatos fantasiosos
 

Trecho do conto "Um pássaro diferente"

Quando Júlio César Ramalho saiu do escritório, ninguém, nem ele mesmo, suspeitava que era a última vez que cumpria aquela rotina. Todos os dias, há sete anos, invariavelmente, quando não estava viajando a negócios, chegava às oito e meia e, calmo, imperturbável, revia com a secretária a agenda do dia, enquanto tomava uma xícara de café servida por Dona Dirce: um café forte e oloroso, sem açúcar, sem adoçante.
Dona Dirce, baixa sem ser jabiru, magra sem ser gralha, devota de São Judas e carismática, rezava todos os dias – assim dizia – pelo seu Júlio César. Sem que este soubesse, o primeiro copo d’água da manhã, que tomava logo após o primeiro café, era água benzida pelo Padre Marcelo Lunaldi; Dona Dirce acreditava que assim o seu Júlio César estaria protegido o dia inteiro das maldades dos homens. Ela acreditava, de pés juntos e de mãos postas, que o doutor Júlio César era um santo, uma alma boa, difícil de se encontrar hoje em dia... A secretária, Marta Helena, mineira de Ituiutaba, dominava quatro línguas estrangeiras com perfeição, e sabia redigir o que lhe pedisse o chefe, no tom e no estilo que quisesse e em função dos objetivos que ele quisesse. Podia ser uma ghost writer, se realmente desejasse, e de certa maneira o era. Júlio César Ramalho, quando não lhe sobrava tempo (e poucas vezes sobrava) para ditar um ofício, se comunicava pelo interfone com Marta Helena: “Martinha, me escreva para o governador; convença aquele turrão de que deve colocar a gente em primeiro lugar na liberação dos recursos”. Ou então: “Marta, estou vendo aqui um recado do setor de contabilidade; diz que o Joaquim Maurílio de Moraes está atrasado no pagamento dos serviços de consultoria; escreva praquele filho-da-puta, ameaça ele de ir aos jornais para denunciar as crueldades que pratica com os trabalhadores dele em suas usinas de cimento. Dá um prazo de dois dias pra ele acertar as contas”. Ou ainda: “Martíssima, escreva para a Secretária de Cultura elogiando ela pelo programa de criação de bibliotecas abertas; levante a bola dela, fale que estou impressionado com o tino dela para os valores da cultura e do espírito, como você sempre diz, mas dê um jeito de escrever que nossa empresa vai ter o prazer de entrar na concorrência pública para a construção dos espa¬ços necessários”. E Marta obedecia, traduzindo em linguagem refinada, sedutora e convincente, a grosseria do Diretor Executivo. E raramente falhava. Marta tinha facilidade para aprender línguas modernas e havia desenvolvido um raro senso de organização. Era mulher de pequena estatura, um tanto maior que Dona Dirce, vestia-se com simplicidade e bom gosto, aqui e ali ressaltando alguma qualidade sensual do corpo que era bem feito, parecendo medido em proporções equilibradas. Embora tivesse um rosto expressivo, não ria muito, sorria nos momentos adequados, sendo propensa, nas conversas, a ironizar sem sarcasmos.
Júlio César Ramalho gostava da eficiência de Marta, de seu tino administrativo e gerencial e tinha tanta confiança nela que pouco a pouco a fora transformando numa assessora privilegiada. Se não fosse a consciência esperta dele para a tomada de decisões, as intuições certeiras para evitar riscos e a coragem de apostar nas alternativas aparentemente menos promissoras mas a meio prazo mais frutíferas, Júlio César (e isto ele se repetia de uns tempos para cá mentalmente) podia desconfiar de uma inversão de papéis: ele apenas executava o que Marta ordenava.
Como em todos os dias da semana, naquela quinta-feira de novembro Júlio César despediu-se de Marta. Eram duas horas e quinze da tarde. Tomou o elevador e chegou à rua. Levava na mão direita uma pasta Victor Hugo, nas quais a secretária havia disposto, em ordem, e segundo as três divisões, a pauta da reunião com os empresários, um resumo dos principais assuntos e argumentos, uma lista de palavras-chave em inglês e em espanhol (caso faltasse o tradutor ou intérprete), minutas de contratos e um pequeno roteiro para um discurso curto. Ao sair para a avenida, Júlio César Ramalho ainda não sabia que jamais sairia de novo para uma reunião de executivos e empresários. E saindo, ainda sentia na mão que agora segurava a pasta, o aperto (pela primeira vez em sete anos) delicado e breve das mãos de Marta; e ainda ouvia a voz dela, modulada por inusitada e surpreendente ternura: “Júlio, cuidado na avenida com as claras asas do Sol”. Ou teria ouvido outra coisa, algo como “Cuidado na vida com os cálidos ares do Sol”. Bem que poderia ter voltado para que ela repetisse a frase perturbadora. Mas esta oportunidade não aconteceria nunca. Na realidade, Marta havia falado como se outra mulher usasse a sua voz.
Sem muitas delongas, deve-se dizer que verdadeiramente Marta Helena era duas pessoas. Esta secretária, meticulosa e eficiente, e a outra, a que escrevia sob o nome de Virgínia Clarice Prado, considerada pela crítica a revelação da literatura brasileira nos últimos dez anos. Tinha lá suas peculiaridades: nunca revelava, no mundo das letras, sua verdadeira identidade; jamais comparecera a uma noite de autógrafos; jamais fora vista em feira de livros; nem mesmo sua agente a conhecia, a mesma agente que conseguira registrar para Virgínia Clarice Prado um CPF, abrir contas bancárias e movimentar o seu dinheiro graças a uma procuração enviesada. Se Júlio César Santana soubesse algo desta segunda Marta, teria decifrado algumas ausências inexplicáveis de dias ou semanas, fora do período de férias. Eram ausências que o irritavam muito, ainda que nenhum trabalho de assessoria ficasse prejudicado.
Júlio César Ramalho atravessou a avenida. O edifício em frente a seu escritório levantava-se ma¬jestoso, alto, em concreto liso e em granito que começava verde escuro no piso térreo e nos andares inferiores e ia clareando até a brancura cimeira, em movimento linear e assintótico. Júlio César deveria entrar nele para a reunião, mas estacou, de repente, na calçada. Tinha visto um pássaro pousado na ponta da torre do edifício do Banco do Estado, duas quadras adiante, do outro lado da rua. O pássaro parecia fitá-lo com olhos de rapina, ameaçadores como fuzis. Era enorme; atingido pelo sol, brilhava; as asas entreabertas pareciam prestes ao vôo; o bico recurvo cintilava à luz. Júlio César, pasmo, percebeu naquela hipérbole de águia um movimento que o jogou à infância. Alguma coisa lhe chegou do passado; uma mistura indefinida de aventura e ameaça, de correria e coragem, medo e sentimento de vitória. O pássaro, agora tinha certeza, o fitava como se fora o único habitante da terra. Quando procurou algum transeunte para apontar aquela ave descomunal, o pássaro mergulhou e, se não fora a trombada de um nino que corria da polícia, Júlio César teria sido arrebatado aos ares. Auxiliado por dois guardas do prédio, levantou-se a custo, já sem a pasta na mão, e divisou as grandes asas douradas, o peito vermelho e o bico recurvoluzente planando em círculo. Sentiu que era convidado a seguir um outro vôo.

Para saber mais sobre o livro, clique aqui.

Para comprar o livro, clique aqui.

 
Pequenas histórias para boi dormir
Zé Preto, Rio Preto: duas almas, um mistério
Cadê? De pedras e limo
Vírus
 
"Aquiete-se! O silêncio quer falar."
Muito mais que uma grande baleia branca.
Sensualidade e lirismo à moda de Mário de Andrade
Um livro com sabor - e cheiro - de alambique
 
Leia mais
 
 
Coloque seu email e receba as novidades do portal Vitrine.
 
Nâo há enquetes disponíveis no momento.
Política de Privacidade Direitos Autorais Regras Comerciais Contato
 
O Portal Vitrine Literária não se reponsabiliza pelo conteúdo veiculado nos livros expostos e nem pela preservação dos direitos autorais. A comercialização é feita diretamente entre autor e interessado, ficando o Vitrine eximido de quaisquer responsabilidades fiscais, financeiras ou de remessa.
Copyright © 2005. Vitrine Literária. Todos os direitos reservados. Design e Desenvolvimento FitWeb Studio.