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Ser jovem na praia
sexta-feira, 5 de outubro de 2012, 22:14
 

Eu tenho 21 anos e sei que Recife não é isso tudo que os outdoors prometem, mas nunca nada é. Minha banda mistura pobres doidos como eu, e a gente acha que a música vai mudar o mundo. Os ecos de Woodstock ainda estão bem vivos, e a paz e o amor qualquer dia chegam por aqui também. Enquanto não, a gente é messias dos dois. Na comunhão, tem hóstia de todo tipo: ácido, xarope, maconha, mandrix, álcool e cigarro, muito dos dois últimos.

Eu faço música e dou em cima das meninas atraídas por ela. Suas coxas de garotas, duros recifes suaves como alga ao tato, recifes firmes que conduzem a naufrágios em canais movediços  – ah, eu ainda não sabia nada, mal e mal dava meus primeiros mergulhos, mas já queria ter para sempre fôlego pra me afogar nestes poços tépidos.

Eu tenho 21 anos, é mais um janeiro em Recife e eu tenho a vida toda pela frente, mas eu só quero saber do até amanhã cedo. “Vamos gravar um disco”, “vamos descer pro sul”, isso não interessa agora. Tem mais um ácido aí? Entre meninas, violões e versos tontos, mais um janeiro pela frente. E isso vai ser eterno, porque a gente tá cantando isso aqui agora.

Quem me dera que isso aí destes três parágrafos tivesse acontecido comigo mesmo. Mas me vieram eles, na cabeça, depois de ouvir dezenas de vezes a música do Ave Sangria, uma mistura psicodélica de Secos & Molhados com Banda de Pau e Corda. “É janeiro de novo e um mundo novo começa circulando em meu sangue feito um blues.” Naqueles idos, Recife tinha um zilhão de coisas acontecendo, tal qual rolara em Minas uns anos antes, e  a Tropicália baiana. Só que como o empoeirado, mas sempre brilhante Clube da Esquina, a cena recifense não recebeu nas décadas seguintes a babação toda – e merecidíssima, salve Mutantes! – dedicada à Tropicália.

Então, o Brasil deixou de saber do Ave Sangria, do Lula Cortes, do Lailson psicodélico, de tanta música maluca que não devia um acorde qualquer ao que se fazia mais embaixo – ou mais em cima, ou mais ao lado, se quisermos ver Europa e EUA. Me sinto feliz por curtir isso, mesmo que tantos anos depois. Um verão na praia sempre foi o meu sonho (passei três dias no Espírito Santo com a turma de formandos de 74 e quase não voltei), mineiro afogado nas grotas (grotas, não garotas - ó que falta faz uma letrinha), nas grotas que dividiam as montanhas. Décadas depois cheguei a morar numa cidade praiana, mas aí já tinha baixado em mim o fogo da juventude. Deus é sábio, agora eu sei.

Mas hoje, socado aqui neste sertão paulista, com um calor que nunca vi em praia alguma, saio feliz com o som do carro no talo. É janeiro, sempre, quando você dá a sorte de ter aprendido que tudo o que é acido na vida pode ser só um belo tempero: ela deve ser  degustada como se deve. Afinal, como diziam os antigos indianos, você baixa neste mundo nu, sem conhecer ninguém e de quebra, na hora de ir embora, não leva nada junto.

Então? Aproveita! É janeiro de novo, mais um, mais de cinquenta já pra mim, mas um mundo novo circula em meu sangue feito uma canção praieira boba e simplezinha...

PS: As ironias da vida. Fui buscar a letra da música no Google, achei uma outra versão da música, bem mais bluesy, lenta e guitarrística, sem nada a ver com a versão que eu conhecia, só com o vocalista da banda, o Marco Pólo, consegardo e precoce poeta recifense, abençoado por Suassuna. Detalhe matador: o nome da música é “Janeiro em Caruaru”... Putz, e eu aqui vendo praia no sertão...

 
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